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Coronavírus

Entenda como pesquisadores identificaram transmissão local de variante da Covid-19 em SC

No início da semana passada, o estudo identificou três casos da P.1, variante que surgiu no Amazonas, mais transmissível que as linhagens dominantes até então.

Foto: Divulgação UFSC

Em março do ano passado, quando a pandemia começava a avançar no Brasil, professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) passaram a atuar em várias frentes para ajudar no combate ao novo coronavírus. Um grupo de pesquisadores começou a planejar estratégias para sequenciar o genoma do Sars-Cov-2. Na semana passada, eles identificaram a transmissão comunitária da nova variante do vírus no Estado. “Estamos fazendo um esforço científico paralelo e complementar ao trabalho dos órgãos governamentais”, explica o professor Glauber Wagner, coordenador do estudo.

No início da semana passada, o estudo identificou três casos da P.1, variante que surgiu no Amazonas, mais transmissível que as linhagens dominantes até então. Ela faz parte de um conjunto de linhagens chamadas de VOC (Variantes de Preocupação, da sigla em inglês, Variant of concern), assim como as cepas descobertas no Reino Unido e na África do Sul – mais recentemente foram encontradas duas novas nos Estados Unidos.

As três amostras foram coletadas no Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago (HU). “Na investigação do hospital houve uma suspeita de que poderia ser a nova variante. Sequenciamos as amostras e comprovamos que se tratava da P.1. Uma nova investigação mostrou que os pacientes se infectaram no Estado. Ou seja, houve transmissão comunitária”, conta Wagner, que é professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC e coordenador do Laboratório de Bioinformática.

Os três pacientes são de Florianópolis. Posteriormente, os pesquisadores confirmaram outros dois casos – um também na capital e outro em Jaraguá do Sul, já comunicados à Vigilância estadual. As amostras seguem para a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, responsável pela confirmação.

Curiosamente, no mesmo dia em que os resultados da pesquisa da UFSC foram divulgados, na quinta-feira, a Fiocruz confirmou outros dois casos da P.1, identificados pela Rede de Vigilância Genômica em Santa Catarina – ela é feita por meio do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen-SC) em parceria com o Ministério da Saúde (MS).

A triagem amostral é realizada em conjunto com a área técnica responsável pela vigilância da Covid-19 na Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive-SC), que encaminha o material para os laboratórios de referência em sequenciamento genômico. Para Santa Catarina, o Ministério da Saúde estabeleceu como referência a Fiocruz. Em um comunicado também divulgado na quinta-feira passada, a fundação divulgou que as VOCs prevalecem no Estado – representando 63,7% dos casos

Apoio da Fapesc

Desde o início da pandemia, diversos professores e trabalhadores da UFSC atuaram no combate ao novo coronavírus. Pesquisadores ligados a alguns laboratórios iniciaram a Força Tarefa Covid-19 da UFSC. Um dos trabalhos realizados, por exemplo, foi auxiliar o Estado a realizar os exames de diagnóstico.

Com um projeto sobre vigilância genômica, o grupo foi selecionado em uma chamada pública da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação de Santa Catarina (Fapesc), que destinou R$ 100 mil à pesquisa. Foi uma das 16 que receberam apoio da fundação para combate à pandemia e seus efeitos.

Para o presidente da Fapesc, Fábio Zabot Holthausen, o resultado da pesquisa mostra a importância das iniciativas de ciência, tecnologia e inovação. “A ciência é a grande ferramenta para podermos enfrentar a pandemia e outros problemas que afetam a sociedade. Continuamos firmes no suporte às iniciativas de pesquisa e inovação em Santa Catarina”, destaca.

De acordo com Wagner, embora no início falava-se principalmente em medidas restritivas, diagnóstico e, para o futuro, vacina, os pesquisadores sabiam da importância de fazer a vigilância genômica. “Desde o princípio sabíamos que somente com o sequenciamento do genoma do vírus iríamos saber o que estaria circulando na população. Sabíamos que os vírus de RNA, como é o caso do coronavírus, mudam. Então propusemos uma pesquisa para analisar se o novo coronavírus mudaria e como seria a distribuição destas variantes no Estado. Essa foi nossa pergunta.”

O projeto aprovado na Fapesc buscava, primeiramente, descobrir se haveria diferentes mutações nas regiões do Estado. Caso essa hipótese se confirmasse, seria possível tomar medidas regionalizadas, mais restritivas, por exemplo. “A hipótese não se confirmou. As mudanças no genoma foram gradativas e seguiram o padrão do país mesmo, não havendo uma predominância de uma variante em uma região ou outra, sendo todas dispersas pelo Estado.”

Aumento da capacidade

Além do HU, as amostras sequenciadas foram colhidas nos hospitais Regional do Oeste, de Chapecó, e Santa Terezinha, de Joaçaba, além do próprio Lacen-SC. O sequenciamento do genoma é realizado em parceria com a startup catarinense Biome-Hub, de Florianópolis.

Na semana passada, depois de terem identificado a nova variante, os pesquisadores se reuniram com representantes do Lacen, Dive e Superintendência de Vigilância do Estado e decidiram remanejar o projeto para ampliar a capacidade de sequenciamento. Até agora foram feitas 109 análises – pelo menos mais 60 serão realizadas.

“Basicamente abrimos mão de aquisição de equipamentos, de computadores para análise, porque conseguimos com parceiros nossos, embora os nossos computadores estejam dando conta de parte das análises no momento”, explica Wagner. “O objetivo é otimizar os recursos para podermos sequenciar mais amostras para contribuir neste período de pandemia que precisamos urgentemente conhecer o que está circulando no Estado de Santa Catarina.”

Fonte: Texto de Maurício Frighetto/Fapesc

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