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Economia

Ciência no prato: melhoramento genético impulsiona a agricultura catarinense

É basicamente por meio de cruzamentos, avaliações e seleções de plantas que os pesquisadores conseguem aumentar nelas a frequência de boas características que interessam à sociedade.

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Foto: Aires Mariga/Epagri

A história do arroz do seu almoço ou da maçã do seu lanche não começou nas terras de um agricultor. Grande parte do que se planta e colhe hoje já foi cuidadosamente testada por pesquisadores, que se dedicaram a estudar características como qualidade, quantidade e sustentabilidade na produção. Graças ao trabalho de melhoramento genético, hoje a população tem acesso a mais alimentos, produzidos com menos insumos químicos, e até mesmo mais saborosos. É a ciência que existe nos bastidores da produção de alimentos que disponibiliza aos agricultores plantas mais produtivas, resistentes a pragas e doenças e à estiagem, por exemplo.

Em Santa Catarina, o trabalho da Epagri que torna isso possível envolve observação constante da natureza e perseverança ao longo de anos (ou décadas) de estudo, respeitando o ritmo de cada cultura agrícola. É basicamente por meio de cruzamentos, avaliações e seleções de plantas que os pesquisadores conseguem aumentar nelas a frequência de boas características que interessam à sociedade. O resultado disso são os cultivares, lançados pela empresa todos os anos, que fazem bonito na lavoura, na indústria, na panela e na saúde do consumidor.

O trabalho começa com a seleção de plantas – ou populações de plantas – com as características que se buscam para um novo cultivar. “Se eu quero um cultivar de cebola menos pungente, mais doce, tenho que trabalhar com populações de plantas que tenham menos ácido pirúvico”, exemplifica Daniel Pedrosa Alves, pesquisador da Estação Experimental da Epagri de Ituporanga (EEItu).

E assim, os melhoristas usam os “ingredientes” da natureza para preencher a lista de atributos que definiram para a nova planta. “Quando se trabalha em melhoramento, via de regra tem que se pensar em produtividade, resistência a doenças, qualidade no armazenamento, vida pós-colheita e menor uso de insumos como adubo e agroquímico. Outra característica que vem ganhando cada vez mais atenção é a qualidade nutricional”, diz o pesquisador.

Essas características vão sendo inseridas na população de plantas por meio de cruzamentos. Ao longo desse processo, os pesquisadores seguem avaliando se as características permanecem nas gerações seguintes.

“Os cruzamentos são feitos para ampliar a variabilidade genética, pois a seleção só é efetiva se há essa variabilidade. Tendo em mãos as sementes resultantes desses cruzamentos dirigidos, são desenvolvidas as populações de plantas a partir das quais o melhorista pode começar a fazer algum tipo de seleção”, detalha Marcus Kvitschal, pesquisador da Epagri/Estação Experimental de Caçador (EECd).

Daí em diante, são selecionadas plantas com as características que se desejavam quando os cruzamentos foram pensados. “Os métodos de seleção variam bastante, de acordo com a biologia reprodutiva da espécie em questão”, diz Marcus.

O pesquisador explica que os métodos de melhoramento de plantas autógamas (cujas flores se autofecundam naturalmente, como arroz e feijão) são diferentes dos usados nas alógamas (que precisam de outras plantas para polinizá-las, como maçã e milho). E quando as espécies são de propagação vegetativa (ou seja: multiplicadas por mudas e não por sementes, como a banana), também mudam os métodos para selecionar as plantas e evoluir nas etapas do programa de melhoramento vegetal.

A duração desse processo também depende da cultura com que se trabalha. Um cultivar de maçã, por exemplo, leva entre 17 e 20 anos para ser desenvolvido. E quando se chega à planta ideal, ainda há um longo caminho a percorrer antes de ela ser liberada para o cultivo.

Por meio de cruzamentos, avaliações e seleções de plantas, os pesquisadores conseguem aumentar nelas a frequência de determinadas características (Foto: Aires Mariga/Epagri)
Cada candidato a novo cultivar precisa ser submetido a testes de Valor de Cultivo e Uso (VCU), que avaliam o desempenho dele nas regiões produtivas para as quais foi desenvolvido. Esses ensaios são exigidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para o novo material integrar o Registro Nacional de Cultivares (RNC).

A lei diz que um novo cultivar precisa ser distinto, homogêneo e estável. “Distinto dos que já existem, homogêneo em relação às características que justificaram o seu registro, e estável na expressão dessas características ao longo das gerações”, detalha o pesquisador Marcus. Depois de inscrito no RNC, o cultivar está liberado para ser produzido e comercializado na forma de sementes ou mudas.

Revolução na produção de alimentos

Os cerca de 200 cultivares lançados pela Epagri nos últimos 40 anos percorreram esse caminho. Os primeiros materiais foram lançados pela empresa antecessora, a Empasc, quando começaram a ser plantadas as sementes de um processo que revolucionou a produção de alimentos dentro e fora de Santa Catarina.

Hoje, os 47 principais cultivares com DNA da Epagri estão distribuídos por mais de 212 mil hectares de lavouras, pomares e pastagens no Brasil. O impacto econômico desse material de alto desempenho em termos de aumento de produtividade, redução de custos de produção, expansão de novas áreas produtivas e agregação de valor no país somou R$437 milhões em 2019, de acordo com o Balanço Social da empresa.

“Grande parte da produção alimentar catarinense se alicerça nos cultivares desenvolvidos e lançados à comunidade rural pela Epagri. Isso faz com que o Estado possa oferecer um produto mais barato ao consumidor em geral, com o qual ele se identifica, e com garantia de qualidade”, destaca Carlos Edilson Orenha, gerente estadual de pesquisa da empresa.

A Epagri conduz projetos de melhoramento vegetal com arroz, feijão, milho, cebola, batata-doce, mandioca, maçã, pera, goiaba-serrana, videira, pêssego, ameixa, maracujá, espécies forrageiras, culturas olerícolas e erva-mate. Esse trabalho é desenvolvido em dez unidades de pesquisa distribuídas em todas as regiões catarinenses. Dos cerca de 140 pesquisadores da empresa, perto de 90 atuam direta ou indiretamente em melhoramento genético, em um trabalho que ultrapassa gerações, como uma herança de conhecimento que só cresce.

A multiplicação do arroz

Só de arroz, já são 33 cultivares com DNA da Epagri. A cada dois anos, um novo material chega ao mercado. “Temos sempre de seis a oito cultivares no portifólio em recomendação de cultivo e uso que se adequam a diferentes condições de clima e solo de Santa Catarina. Nosso diferencial é ter materiais que se adaptam de maneira diferente a essa grande colcha de retalhos de condições que a gente tem no Estado”, diz Ester Wickert, pesquisadora da Epagri na Estação Experimental de Itajaí (EEI).

Em 40 anos de trabalho, a produtividade média de arroz em Santa Catarina saltou de 2,2 toneladas para 8 toneladas por hectare. “Além do melhoramento genético, que elevou o potencial de produção, temos a adequação de práticas de cultivo, a adoção de novas tecnologias, a organização do setor produtivo e da produção de sementes – e a Epagri tem participação em tudo isso”, acrescenta a pesquisadora.

O salto também foi de qualidade. “O melhoramento se preocupa com resistência a doenças, a pragas, e com a questão de adaptabilidade. As plantas têm que ter um arranque inicial, um vigor muito bom, por exemplo, para que possam competir com as plantas daninhas. E o consumidor quer um arroz de grão de formato longo-fino, branco, que fique solto na panela, para comer com feijão”, exemplifica Ester.

A última novidade da Epagri em arroz é o cultivar SCS125, lançado em fevereiro. Nos diferentes experimentos realizados em Santa Catarina, ele apresentou produtividades superiores a 10 toneladas por hectare. “O cultivar também tem ótima qualidade de grão, ciclo longo, resistência ao acamamento e boa sanidade geral”, descreve o pesquisador Alexander de Andrade. O SCS125 é indicado para parboilização e oferece 70% de rendimento para a indústria.

Novidades como essa são sempre bem recebidas pelos rizicultores, que querem saber como os lançamentos se adaptam a diferentes tipos de solo e condições dentro da propriedade. A expectativa é que o SCS125 seja o cultivar mais plantado na safra 2021/22 em Santa Catarina.

Santa Catarina é o maior produtor nacional de cebola, respondendo por cerca de 30% da produção brasileira – e a disponibilidade de material genético de qualidade ajuda a contar essa história. Hoje, o cultivar preferido pelos catarinenses é o SCS373 Valessul, lançado pela Epagri em 2017. Ele chegou ao mercado juntando as vantagens de dois sucessores que eram os mais plantados até então: o ciclo produtivo da Bola Precoce e a coloração de casca da Crioula Alto Vale.

Cultivares de cebola com ciclo precoce (ou seja, que produzem mais cedo) são os mais plantados pelos agricultores catarinenses. E a casca vermelho-amarronzada, que vem da Crioula Alto Vale, é atrativa para comerciantes e consumidores. “Outro destaque é a maior conservação no armazenamento e no transporte, que é uma grande vantagem para os comerciantes, pois diminui as perdas. E para o agricultor também é uma vantagem, pois os comerciantes acabam pagando um valor maior pela cebola Valessul. Os próprios comerciantes passam a pedir pelo nome do cultivar”, conta o pesquisador Daniel Pedrosa Alves.

Com ciclo precoce e casca vermelho-amarronzada, a Cebola Valessul agrada produtores e comerciantes (Foto: Aires Mariga/Epagri)
Estima-se que, na safra atual (2021/22), cerca de 7 mil hectares tenham sido plantados no Brasil com a cebola SCS373 Valessul – mais de 90% desse total em Santa Catarina. Esse cultivar é licenciado para uma empresa que comercializa as sementes e devolve para a Epagri parte do valor em forma de royalties. “Isso faz a roda girar: a gente consegue retroalimentar a pesquisa e desenvolver novos materiais para os produtores”, diz Daniel.

Maçã com carreira internacional

A Epagri é a única instituição no Brasil que faz melhoramento genético de macieira. O trabalho é desenvolvido pela Estação Experimental de Caçador e pela Estação Experimental em São Joaquim, que já lançaram 20 cultivares.

Algumas das maçãs mais famosas da Epagri são Fuji Suprema, Monalisa, Luiza, Venice e Gala Gui. Elas brilham em pomares do Brasil e algumas são produzidas até na Europa. “Monalisa está em teste no mundo todo, e com boa perspectiva de virar um Clube de Variedade mundial. E para Luiza e Venice já firmamos contrato com parceiros franceses e italianos, também para constituírem uma marca mundial”, diz Marcus Kvitschal. Essas parcerias internacionais levam a qualidade dos materiais catarinenses ainda mais longe e trazem para o Estado recursos que são reinvestidos nas pesquisas locais.

A Gala Gui é outra grande promessa, pois tem frutos bem coloridos e é resistente à mancha foliar de Glomerella, a pior doença da maçã no Brasil. “Ela deve ocupar espaço gradualmente ao substituir pomares antigos de Gala nos próximos anos”, prevê Marcus.

Mas a Fuji Suprema, lançada em 1997, ainda é a mais cultivada nos pomares catarinenses. Ela tem a casca mais vermelha e atraente que a Fuji Standard. “Essa característica leva à obtenção de maior percentual de frutos Extra, Categoria 1 e Categoria 2, que são os de maior valor comercial”, explica Marcus. Esse cultivar também reduz em cerca de 30% as perdas pós-colheita por podridões em relação ao Fuji Standard.

O pesquisador conta que 35% a 45% de toda a maçã produzida no Brasil advém de clones de Fuji, e a maior proporção é de Fuji Suprema. De acordo com o Balanço Social da Epagri, em 2019 esse cultivar ocupou 5,4 mil hectares no sul do Brasil, somando um impacto econômico R$73 milhões em aumento de produtividade e agregação de valor para os produtores. Desse total, 2,8 mil hectares estão em Santa Catarina. O Estado é líder nacional na produção da fruta e deve colher mais de 550 mil toneladas na safra 2020/21, o que representa metade da produção nacional.

Milho para a agricultura familiar

Três cultivares de milho voltados para as necessidades da agricultura familiar ganham mais terreno a cada ano. Batizados de SCS154 Fortuna, SCS155 Catarina e SCS156 Colorado, os cultivares de Variedade de Polinização Aberta (VPA) desenvolvidos pelo Centro de Pesquisa para Agricultura Familiar da Epagri (Cepaf) tiveram 33,5 toneladas de sementes comercializadas em 2020 – um volume que ainda não alcançou o tamanho da procura.

A rusticidade é que torna esses materiais tão apreciados pelos agricultores. “Há uma pequena variação genética normal dentro de cada variedade de milho da Epagri. Isso proporciona um equilíbrio quando alguma situação anormal acontece, como falta de chuvas, por exemplo. A lavoura é menos afetada porque algumas plantas vão estar com um ou dois dias de diferença, e elas respondem de forma diferente em cada estágio de desenvolvimento”, explica Felipe Bermudez Pereira, pesquisador da Epagri/Cepaf.

Milhos de Variedade de Polinização Aberta são mais rústicos e geram economia na lavoura (Foto: Epagri)
Na safra 2020/21, mesmo com o impacto da estiagem em diversas regiões de Santa Catarina, os milhos VPA da Epagri renderam uma média de 100 sacas de grãos por hectare, ou 25 toneladas de silagem por hectare. “Em anos com chuvas regulares e boas práticas de cultivo, nossos materiais podem chegar a produzir 150 sacas de grãos por hectare”, acrescenta Felipe.

Esses milhos também são tolerantes a doenças e têm menor custo de sementes – e tudo isso deixa a lavoura mais barata. “Os cultivares de milho da Epagri respondem muito bem a qualquer investimento na lavoura, como adubação, controle de insetos e irrigação”, detalha o pesquisador. Em Santa Catarina, a área estimada com esses cultivares é de 1,3 mil hectares.

Mandioca que rende mais farinha

Uma mandioca com cerca de 29% a mais de amido que as outras variedades plantadas em Santa Catarina entrou em cena em 2014 pelas mãos da Epagri e trouxe ganhos para toda a cadeia produtiva. “Essa característica garante um incremento de renda tanto para os produtores quanto para os engenhos que processam as raízes”, diz o pesquisador Alexsander Moreto, da Estação Experimental da Epagri de Urussanga (EEUr).

Isso significa que o cultivar SCS254 Sambaqui rende mais farinha. O teor elevado de matéria seca gera economia no transporte das raízes, já que menos cargas são necessárias para produzir a mesma quantidade de farinha ou fécula. Também há economia de energia e tempo gastos no beneficiamento. Sem falar na redução dos resíduos líquidos (conhecidos como manipueira) descartados no processo de fabricação.

O cultivar Sambaqui também tem alta produtividade no campo, é tolerante à bacteriose e possui uma arquitetura de planta que permite o fácil acesso do agricultor à lavoura para realizar os tratos culturais.

A Epagri estima uma área de aproximadamente 1,1 mil hectares plantados com o cultivar Sambaqui em Santa Catarina. Em 2019, o impacto econômico desse cultivar no Brasil em aumento de produtividade e agregação de valor somou R$7,8 milhões.

Ciência a favor da sustentabilidade
A lista de cultivares com selo de qualidade da Epagri continuará a crescer e gerar grandes colheitas dentro e fora de Santa Catarina. Isso porque o melhoramento genético é um processo contínuo. Ele acompanha o progresso da ciência, respeita o ritmo da natureza e é movido pelas demandas da sociedade por quantidade, qualidade e processos de produção cada vez mais sustentáveis.

“O tripé da sustentabilidade é composto pelos vieses social, ambiental e financeiro. Dessa forma, um novo cultivar já é desenvolvido e disponibilizado aos produtores a fim de melhorar a geração de renda, a qualidade de vida do produtor, a qualidade do alimento ofertado à sociedade e reduzir o uso de insumos, garantido a sustentabilidade na agricultura”, resume Carlos Edilson Orenha, gerente estadual de pesquisas da Epagri. No que depender desse esforço, a Epagri ocupará um espaço cada vez maior no seu prato.

Fonte: Visor Notícias

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